Espetáculos



2011/2012

O espetáculo Festas Goianas chega aos palcos trazendo para o público da cultura popular um recorte dos principais festejos religiosos do estado de Goiás. Celebrações que atravessam os séculos, incorporam o fazer das novas gerações, sem perder, contudo, o que mobiliza ano a ano comunidades inteiras em torno de uma mesma realização: a devoção ao cristianismo.

Antigas práticas do catolicismo popular ganham espaço comum no Festas Goianas ao mesmo tempo em que preservam peculiaridades inerentes ao caráter exclusivo de cada manifestação, seja pela frontalidade dos farricocos constrastada à idolatria de romeiros ao Divino Pai Eterno, seja pela representação diversa de batalhas travadas em nome da fé.

A mais recente produção do Grupo Folclórico Brasil Central mergulha no limiar entre o sagrado e o profano, reafirmando a identidade cultural de um povo devoto por vocação e festivo por natureza. É nesta atmosfera de crenças, cores e ritmos sintônicos que o espetáculo se conduz e entrelaça tal qual um pout porri artístico expressões arraigadas no cotidiano simplório do centro-oeste brasileiro.

Encenações musicais, dançantes e teatrais alternadas com declamações de poesias litúrgicas compõem uma mescla demonstrativa de louvor aos antepassados e invadem o imaginário dos expectadores ao realçarem a riqueza de sentimentos que habitam os recônditos da religiosidade em Goiás.

Festas Goianas transcende a linearidade do tempo, abrangendo de forma simultânea influências seculares que alimentam a vivacidade cultural enquanto ponto de partida e referência das futuras gerações.
Confira abaixo os blocos que fazem parte deste espetáculo:

Festa de Nossa Senhora do Rosário


Valendo-se da multiplicidade simbólica e ritualística de uma comemoração secular, Festas Goianas convida amantes da cultura popular a deleitarem-se na convergência de valores sociais, culturais e religiosos de Catalão.
O Grupo Folclórico Brasil Central apresenta a Festa de Nossa Senhora do Rosário partindo da dinamicidade representativa da celebração ao projetar para o público a diversidade de origens e significados dos elementos que integram o festejo. No espetáculo, manifestações alusivas à influência africana do culto supõem, por assim dizer, os incrementos da apropriação brasileira trazendo à tona o ritmo consonante dos batuques, rezas, louvores e adoração transpirantes do enlace intercontinental.
Em um cenário de miscelâneas, fé e devoção refletem igualmente o teor profano da festividade de caráter dualístico, cuja projeção se percebe resistente às transformações históricas daquele povo. São as congadas a expressão mais intensa de veneração à Virgem do Rosário e recriam todos os anos um universo dançante, musical e não menos litúrgico.
A representação embarca no movimento sicrético do acontecimento folclórico-religioso reinterpretando valores e crenças persistentes no interior de Goiás e em nome dos quais se fundem as diferentes percepções de um só evento, enquanto espaço de compartilhamento e complementação.
Festas Goianas se constitui em um fenômeno de projeção do que há em comum na memória e no coração de uma gente artisticamente cultural e historicamente devota.


Festa do Divino Espiríto Santo

Inspirado nas manifestações religiosas que se repetem há quase dois séculos em Pirenópolis, o Grupo Folclórico Brasil Central integra ao novo espetáculo a Festa do Divino Espírito Santo como forma de levar a público uma das expressões devocionais mais ricas do país. A celebração, reconhecida pelo IPHAN em 2010 como Patrimônio Cultural do Brasil, apresenta todos os pressupostos que permitem entendê-la como um ‘fato social total’, justificado pela transposição de quaisquer diferenças, sejam elas de que origem for, no intuito de manter acesa a chama da tradição que une e mobiliza anualmente milhares de pirenopolinos para o mesmo fim.
Embora incorpore a dualidade sacro-profana comum à maioria das festividades religiosas brasileiras, a Festa do Divino projeta-se singular na remontagem que perpassa em tom de igualdade o fervor da fé e a atuação farrista de seus componentes. O exclusivismo se ilustra pelo cartáter multi-ritualístico do evento, que tem como ponto alto a representação dramática da luta entre mouros e cristãos - conhecida como Cavalhadas -, e ainda a procissão que percorre as ruas da pequena cidade histórica levando consigo a bandeira do divino, símbolo de maior significado entre os fiéis.
O misto de cortejos, missas e apresentações folclóricas composto em homenagem ao Divino ganha um retrato particular no espetáculo Festas Goianas, criado essencialmente enquanto meio de difusão e salvaguarda de bens imateriais que definem, delineiam e enriquecem a identidade cultural de um povo.

Festa de Trindade

O Grupo Folclórico Brasil Central traz para além dos limites do município de Trindade mostras de um cenário reconhecido em todo o país pelo caráter grandioso da festividade que comporta e em torno da qual se reúne a cada ano uma multidão vinda dos mais variados cantos do Brasil. Ao espetáculo é emprestado o simbolismo do fenômeno processional de devoção e gratidão ao Divino Pai Eterno em que sacrificantes passos conduzem os peregrinos até o santuário como num gotejar incessante.


Imbuída da essência sacra intrínseca à Festa de Trindade, a encenação rememora ainda as primeiras romarias de carros de bois, no século XIX, quando famílias inteiras de lavradores percorriam longas distâncias em busca de bençãos e proteção divina aos seus animais, indispensáveis para o transporte e trabalho no campo.

Misticismo e austeridade transbordantes na celebração religiosa protagonizam o Festas Goianas em um jogo de luzes e sombras que projetam a duplicidade inerente aos atos litúrgicos. A chegada ao encontro de Deus desemboca em uma onda festiva e os espaços antes consagrados a sublimes manifestações de fé dão lugar à profanidade expressa nas danças e músicas folclóricas. É o momento em que a batida sincrônica de pés e mãos marca o ritmo da catira, dando início a uma série de demonstrações populares próprias da cultura regional.

A releitura apresentada pelo Brasil Central é um convite ao resgate da memória histórica, bem como à contemplação de tradições que transpõem a passagem do tempo.


Procissão do Fogaréu

Tal qual se materializa na histórica Cidade de Goiás há mais de 200 anos, a Procissão do Fogaréu invade os palcos do Festas Goianas desvelando sentimentos que remetem devotos ao episódio maior na memória do Cristianismo.
Conforme depõe a tradição, o silêncio da meia-noite da quarta-feira santa se desfaz ante a marcha dos farricocos à procura de Jesus, madrugada adentro. O breu noturno, destoado pelas tochas levadas no desfile, transfigura-se em uma atmosfera de inquietude e opressão. Da perseguição ao aprisionamento, freado está o embalo festivo da Semana Santa, cujo fechamento culmina nas estações da paixão de Cristo.
Embora sabida, a comovente encenação pelas ruas e becos do interior de Goiás se repete a cada ano com ares de ineditismo, bem aceito aos olhos de uma gente ávida por manifestações representativas de fé.
De igual caráter, o Grupo Folclórico Brasil Central remonta de forma inovadora o cenário por onde desfilam os personagens da cultura popular goiana. Na apresentação, o efeito visual que contrasta luz e sombra aliado à figura amedrontadora dos perseguidores encapuzados convida o espectador a reviver emoções implicitamente mantidas na celebração envolta em mistério, suspense e misticismo.
Impregnado do simbolismo religioso a que se justifica a realização, o espetáculo transcorre fiel à expressão folclórica secular, causando ao público inevitável enlevo refletido dos requintes da espiritualidade cristã.

Bloco Folias da terra

A reverência ao estado de Goiás se mostra mais forte, estusiástica e inovadora nos moldes em que se apresenta o bloco Folias da Terra,  fusão de origens e estilos culturais. Nos palcos, o Grupo Folclórico Brasil Central incorpora a diversidade que extrapola fronteiras sem deixar perder o caráter bairrista de sua atuação. Manifestações de dança herdadas de outras terras mescladas à expressividade goiana ganham nuances ímpares e projeções peculiares da tradição popular, levando o público ao vislumbre de um universo multifacetado e ao deslumbre de festejos multiculturais.
De musicalidade contagiante, variedade coreográfica e de trajes, o espetáculo se farta, agraciando expectativas com o rigor da produção artística ao desafiar limites do inusitado e da ousadia.
Embalados por ritmos que se misturam ao mesmo tempo em que pontuam com cadência as diferentes influências de sua concepção, os integrantes do Brasil Central retomam o vigor de suas representações mosaiquianas e elevam ao gosto mais apurado a autenticidade já reconhecida pelo público mundo afora.
Folias da Terra encerra Festas Goianas em tom exclamativo e abre reticências à insaciabilidade comum aos encantamentos da arte. 

Cores do cerrado - 2009/2010

Descrição e histórico dos blocos que compõem este espetáculo:

Fogaréu:
É o evento que simula a perseguição dos farricocos a Jesus Cristo. A procissão acontece nas ruas da Cidade de Goiás, sempre na quarta-feira da Semana Santa, e tem o envolvimento direto da população local. De origem medieval e européia, o fogaréu só acontece ali e é realizada desde o século 19.

A apresentação feita pelo G.F.B.C., retrata com riquezas de detalhes este folguedo, desde o figurino que se configura de túnicas, capuz, tochas e estandarte representando Jesus Cristo capturado, idênticos aos usados na apresentação original, até a musicalidade que vai de encontro ao clima de perseguição e captura de Jesus Cristo.

Marimbondo:
Dança de brincadeira, onde o figurante principal tinha um pote cheio de água na cabeça sob uma rodilha de pano e ficava no centro da roda, respondendo e dançando sem deixar cair a água do pote. Enquanto a roda lhe perguntava: “negro o que que tem? E ele respondia: -“ marimbondo sinhá”. No GFBC o marimbondo sofreu algumas adaptações para que pudesse ser encenado nos palcos, o pote de água também foi substituído por uma espécie de caixa de marimbondo colorida. 

Tapuios: 
Era uma dança com os caboclos e os brancos que, com vestimentas de guerreiro, disfarçavam-se de índios. Consiste na representação de um combate entre tribos indígenas que acaba com o aprisionamento do cacique vencido.
Bloco da Catira: 
CATIRANDÊ
Introdução divertida para a execução, propriamente dita, da catira. Dança alegre e envolvente, onde a presença da mulher é pontuada com bailados dos casais de forma sensual e instigante.


Catira
Catira é dança profana (não religiosa) dançada só por homens. É uma das mais conhecidas danças folclóricas brasileiras. Duas são as origens designadas para a catira: uma que a relaciona com a dança carretera existente em Portugal no século XVI, e outra que a considera herança de danças dos índios, uma vez que cateretê (nome conhecido em Minas Gerais e São Paulo) é palavra indígena do tupi guarani.
O que caracteriza a catira é o palmeado e o sapateado. Estes são executados ao repicar da viola nos intervalos da cantoria da moda de viola executada nas festas de folia, sempre alterando, ora o sapateado, ora o palmeado, fazendo evoluções variadas de entremeios.  

Dança Catira
Introdução das mulheres nas movimentações específicas da catira. Estas são convidadas pelos seus respectivos pares para adentrarem nesta celebração rítmica e corporal. As mulheres são colocadas em foco de atenção pelos cumprimentos e convites dos homens, com seus chapéus.  Finalizando com movimentação virtuosa dos pares em colunas à direita e à esquerda do palco, momento em que as mulheres também executam os palmeados e sapateados rítmicos da catira. Elemento este identificado nas laborações mais contemporâneas da catira.
Quadrilha: 
Dança que se originou da contra-dança na corte francesa no século XVIII, chegou ao Brasil, no século XIX, na região de Cananéia-SP, sendo trazida pelos portugueses. No início, era uma dança da cidade, que posteriormente foi para o campo e voltando a ser praticada na cidade de uma forma recriada. Atualmente ela pertence aos Santos Juninos, abrigando os pagodes nos seus rituais. No início do século XX, ela era a principal dança nos saraus da cidade de Goiás, Pirenópolis e Santa Cruz de Goiás.

Vilão de Lenço e Pau de Fitas: 
Fazem parte da contra-dança realizada em Goiás e que faz parte de uma longa e antiga tradição de contatos culturais entre diferentes segmentos da sociedade goiana, valorizando a possibilidade de outros caminhos de convivência e interação social e cultural. Demonstrando a evidência histórica destes caminhos, destaca-se a apresentação da contra-dança de Pirenópolis realizada no ritual de Pentecostes.
Vilão, em Goiás, é morador da vila e da roça. É mais uma dança de roceiros. Os dançadores formam uma roda fechada tão grande quanto forem os participantes. Em vez de darem as mãos, seguram as pontas dos lenços. Assim ligados, os dançantes, fazem toda espécie de micagens, dão piruetas, retorcem-se e continuam sempre ligados. Tudo isso ao som da viola e do violeiro, que ficam de fora da roda.
O pau de fitas é dançado aos pares, que seguram uma fita presa ao mastro. Os pares cruzam-se entre si e evoluem na roda, ao mesmo tempo em que entrelaçam a fita no mastro, formando uma figura, depois em algum momento fazem meio giro e desenrolam a fita até o final. O mastro, em torno do qual a dança é realizada, representa a “árvore da vida” – um símbolo encontrado em todas as tradições religiosas. Esta dança é da tradição celta e chegou ao Brasil através dos portugueses. É tradicionalmente realizada, no dia 1° de Maio, nas fogueiras de Beltane. Festa pagã, em honra do Deus bellenos – Deus Sol – da tradição Celta. As pessoas dançando nas pontas das fitas representam os frutos das árvores. A dança foi adaptada para a festa de Pentecostes e aceita pela comunidade, transformando-a em tradição. Em nossos espetáculos utilizamos as cores das fitas em vermelho e branco simbolizando as cores do Divino Espírito Santo.

Danças de imigração:
Coletânea de danças encontradas na região  e que foram trazidas principalmente por imigrantes italianos, portugueses, espanhóis e alemães. Dentre elas destacamos a dança do café - de origem italiana é inspirada no trabalho dos imigrantes das lavouras de café, como o apanhar, o abanar dos grãos e a comemoração pela colheita. Em cada região assume características próprias. Merece destaque também a dança do mestre Domingues – fandango caracterizado pelo sapateio e sarandeio realizado pelos dançantes, possui passos como castanhola, amizade e desprezo. Outro fandango encontrado neste bloco é o volta senhora – a quadrilha mais vistosa em efeitos coreográficos e cenográficos, sendo dançada principalmente no estado de Goiás. Homens e mulheres que ao compasso da viola e o canto do violeiro, executam inúmeras figuras e variações, o moinho é uma das figuras mais apreciadas, é formada por uma roda em que as mãos direitas dos dançadores se entrelaçam formando um eixo, enquanto giram para um lado e outro.

Cavalhadas:  
Festa ibérica de origem medieval e baseada na lenda de "Carlos Magno e os Doze Pares de França", as cavalhadas representam o embate entre mouros e cristãos, que são distribuídos em duas equipes de cavaleiros, uma vestida de azul e, outra, de vermelho. Constitui-se em um dos auges da Festa do Divino do interior brasileiro. Em Goiás, são realizadas em vários locais e em épocas distintas, sendo a mais conhecida a cavalhada de Pirenópolis, onde é realizada desde 1826. Acontece em Corumbá de Goiás desde 1958 e, em Pilar de Goiás, desde 1895.
A encenação deste folguedo pelo G.F.B.C. traz todos os elementos constituintes da festa, com os representantes dos mouros e cristãos, os imperadores, as armas utilizadas nas batalhas (lança, espada e pistola), cavalos cênicos e mascarados. Figurino muito bem elaborado para realmente traduzir a riqueza e brilho desta festa.  Em movimentações extenuantes de batalha e gritos de afrontas, as cavalhadas, aqui relatada, se aproxima ao máximo da festa original.
Danças típicas de Goiás:
Uma coletânea de danças características da região, entre elas a caninha verde - consta de uma roda de homens e mulheres que cantam e dançam permutando de lugares e formando pares, os textos cantados são tradicionais e circunstanciais, acompanhados por viola, violão e pandeiro. O bem ti vi é outra dança que se destaca no bloco, ela faz parte do cancioneiro infantil goiano, e é uma das cantigas de roda mais típicas do estado.

Danças tradicionais de Goiás: 
Uma coletânea de danças tradicionais da região, que foram trazidas para o estado pelos tropeiros na época do ciclo do ouro, sofreu algumas modificações sendo representadas pelo GFBC de uma forma estilizada para embelezar o espetáculo.
Dentre as danças deste bloco destacamos a cana verde – onde a disposição dos dançadores varia entre círculo sem solista, fileiras opostas, rodas concêntricas; os movimentos podem ser deslize dos pés, sapateio leve ou pesado, balanceios, gingados e troca de pares. O movimento tido como característico é a “meia volta”, desenvolvida num círculo que se arma e se desfaz com os dançadores deslizando, ora para dentro ora para fora, ora em desencontro, ora em retorno à posição inicial. 
Destaca-se ainda a dança do serra moreninha - popular e muito apreciada nos pousos de foliões do sul de Goiás. É uma espécie de bailado. Está classificada entre as danças de salão. Em sua coreografia os homens compõem uma fila e as mulheres, outra com igual número de participantes. Dão-se as mãos damas e cavalheiros, dançam com meneios e requebros. Enquanto dançam, ao som da orquestra, os pares imitam os movimentos de serradores que puxam a serra.

Um comentário:

Anônimo disse...

me ajudou muito em um trabalho!